quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Violência banalizada pode conduzir ao rearmamento

 
            
            Um dos desdobramentos da escalada de violência que a Bahia vive desde a última semana  com o motim da Polícia Militar deve ser o rearmamento da população. No mínimo, as consagradas cenas de pessoas entregando suas armas em postos de recebimento devem sofrer um refluxo considerável. Afinal, a matança indiscriminada de mendigos, as armas apontadas contra mulheres obrigadas a descer de ônibus em avenidas movimentadas de Salvador, os saques e os arrastões e os tiros deflagrados contra agências bancárias são típicas de países mergulhados no caos que antecede os golpes de Estado.
            Nada mais natural, portanto, que o cidadão indefeso e acuado em casa resolva preservar o revólver que mantinha guardado no guarda-roupas e desista de contribuir para a campanha do desarmamento; outros, mais afoitos, não hesitarão em adquirir uma arma porque a barbárie dos últimos dias deixará seqüelas difíceis de serem esquecidas.
            Em 2005, naquela consulta sobre o desarmamento realizada pelo Governo Federal, a maior parte da população votou pela proibição da venda de armas. Se os motins tocados pelos policiais militares em diversos estados prosperarem, como ocorreu na Bahia, com certeza vai aflorar uma pressão pelo rearmamento, inclusive pela liberação da venda de armas.
            É desnecessário dizer que esse é o pior dos cenários possíveis: mais gente armada vai significar mais armas circulando em cinturas e porta-luvas de carros, o que vai se traduzir em mais assassinatos, mais tentativas de assassinatos e maior sensação de insegurança. Combinados, esses fatores vão manter os níveis de violência nos elevados patamares atuais, sem perspectivas de redução.

            Novas greves

            Por outro lado, nada significa que a desordem atual será sucedida pela calmaria: novas insubordinações poderão acontecer por motivos fúteis ou aproveitando-se circunstâncias específicas: alguém, por exemplo, pode duvidar que 2014 reservará uma nova onda de greves às vésperas da Copa do Mundo? Ou às vésperas das Olimpíadas de 2016?
            Tentados por certas facilidades, líderes grevistas desequilibrados ou outros oportunistas de plantão podem avançar para além da pauta salarial e pretender reformar o Brasil através de golpes de Estado, como muitos fizeram desastradamente no passado. Para tanto, bastam armas à mão e ânimos exaltados, o que já se verifica no caso baiano. Resta saber se essa situação vai se alastrar por outros estados.
            Uma célebre frase indica que a democracia é o pior dos regimes, à exceção de todos os outros. Cabe-nos, portanto, sustentar a defesa intransigente da democracia e repudiar as lideranças messiânicas que ressurgem nos dias atuais e que pareciam relegadas à mera curiosidade histórica há pouco tempo.
            Impotentes, os baianos acompanham, apreensivos, o noticiário e se empenham em sustentar uma normalidade apenas aparente. Nas ruas comerciais da Feira de Santana, pelos pontos de ônibus e pelas feiras-livres, o que se vê são pessoas assustadas e eloqüentemente silenciosas. Não resta dúvida que os dias de terror que escorrem figurarão como dos mais tristes da História recente da Bahia...

Violência na agenda eleitoral de 2012

 
             Há cerca de um ano escrevemos um artigo nesta mesma Tribuna Feirense apontando que o número de homicídios na Feira de Santana estava se expandindo a taxas decrescentes e que, em algum momento, seria alcançada uma estabilidade nos números. Nesse mesmo texto indicávamos que, a partir de então, poderia haver declínio, mas a um preço que não permitiria comemorações: afinal, o número de pessoas assassinadas a cada ano no município alcançou a absurda taxa de um assassinato por dia, em média. Isso numa cidade com cerca de 550 mil habitantes.
            Os números divulgados pela Secretaria da Segurança Pública referentes à violência na Bahia em 2011, em parte, confirmam esses prognósticos. No ano que se encerrou houve relativa estabilidade na quantidade de assassinatos em relação a 2010, mas o importante é visualizar a série histórica: nessa, em cerca de uma década o número de vítimas praticamente triplicou.
            Grande parte da violência se deve à proliferação do tráfico e do consumo do crack. Isso sobretudo a partir da segunda metade da década passada, quando a droga se tornou mais acessível em centenas de cidades brasileiras, inclusive na Feira de Santana que, ironicamente, é prejudicada na sua condição de entroncamento rodoviário.
            Em parte, o espantoso crescimento da violência no município se deve à epidemia de crack. Essa dedução, no entanto, é pouco mais que especulação: não existem estudos que confirmem essas suspeitas e, sequer, existem levantamentos minimamente confiáveis. O que há são registros policiais não trabalhados estatisticamente e declarações à imprensa de autoridades policiais.

            Exploração política

            A escassez de informações confiáveis, paradoxalmente, constitui pasto abundante para uma abjeta guerra política. Quem é governo encastela-se comodamente na alegação que a epidemia constitui uma herança histórica que foi se acumulando nos 500 anos de Brasil; e quem é oposição arrota o discurso da competência hereditária empregando o sempre fácil jargão da “gestão”.
            Esquecidos durante muitos anos, os andrajosos usuários de crack que se esgueiram pelas vielas dos centros das grandes cidades foram, subitamente, lançados à luz da cena política graças à desastrada operação policial na “cracolândia” paulistana: a partir de lá, os brasileiros descobriram que os governos simplesmente não sabem como lidar com a epidemia.
            Enquanto as soluções peregrinam nos escaninhos burocráticos, a indústria do tráfico produz finados em escala industrial: só na Feira de Santana pelo menos umas mil pessoas morreram nos últimos anos em função das drogas; são números dignos das regiões mais conflagradas do planeta, a exemplo do Afeganistão ou do Iraque.

            Eleições

             Dentro de oito meses os brasileiros elegerão mandatários municipais para os próximos quatro anos. Em alguns municípios – a exemplo da Feira de Santana – a violência e, particularmente, o tráfico e o consumo de crack, figurarão na agenda eleitoral. Isso, inclusive, aconteceu em 2008, quando o tema serviu de mote para a criação de secretarias de resultados duvidosos.
             Inescapável, o tema deveria ser tratado pelos candidatos com a seriedade necessária. Prefeito nenhum retirará soluções mágicas de cartolas imaginárias: o problema só poderá ser enfrentado em articulação com os governos estadual e federal. Repassar a responsabilidade para adversários políticos ou dizer que a própria parte foi feita constitui uma excelente desculpa, mas não resolve o problema.
            É bom que a lição da “cracolândia” paulistana permaneça na memória dos eleitores, inclusive o feirense. Afinal, se o tema continuar a ser tratado com o recurso da retórica inócua, a mesma cena pode se repetir em outros palcos com atores vítimas do mesmo mal, para espanto do telespectador brasileiro.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O risco de uma “cracolândia” feirense

 

Não lembro exatamente se foi na véspera ou na antevéspera de Natal. O que recordo bem é que dezembro transcorreu sob um calor insano, apesar das imensas nuvens encardidas, prenunciando uma chuva que caiu no fim da manhã e que encobria o sol com frequência. Passava por uma das esquinas da avenida Sampaio e notei os três homens conversando, dois deles debruçados numa varanda. O movimento de veículos e pedestres já era menor, em função dos festejos natalinos. Mas ainda assim muita gente entrava e saía das clínicas nas imediações.
Antes que passasse por eles, o grupo se dispersou: dois permaneceram na varanda, um seguiu adiante. Um dos interlocutores comentou sobre o que saíra: “Querendo fumar pedra a essa hora. Tem mais é que se f... mesmo”. O ar de desprezo reforçava o tom cruel da sentença.
O que seguira devia ser adolescente: maltrapilho e encardido, tinha a idade incerta dos que vivem nas ruas. As roupas largas e sujas dançavam no corpo magro, de pele parda. Adiante parou, interpelou um transeunte baixo e forte. Este, com gestos lentos, tirou a carteira do bolso e repassou uma nota de R$ 2 para o adolescente que fez meia-volta e retornou com um sorriso nos lábios, feliz como quem conduz um bilhete premiado de loteria.
Depois de alguns minutos, refiz o mesmo roteiro. O adolescente e um dos interlocutores sumiram: deduzi que tinham ido comprar crack nas imediações. O sujeito que fizera o comentário permanecia na mesma varanda: esticara-se num colchão de espuma, muito sujo, junto a uns trastes guardados numas sacolas plásticas.

Expansão

Esse tipo de cena, durante muitos anos, chegou aos feirenses apenas através da televisão, em reportagens que abordavam a disseminação do consumo de drogas – particularmente o crack – no centro de São Paulo ou em alguma outra metrópole. Avassalador, o tráfico alargou fronteiras e, a partir do final da década de 1990, alcançou as cidades médias.
Na década seguinte tornou-se epidemia: chegou às pequenas cidades e as “cracolândias” se multiplicaram. Nas metrópoles, já nem faz sentido se referir a uma “cracolândia”: as áreas de consumo se distribuem por região geográfica. Em Salvador, por exemplo, toda a região central da cidade abriga viciados: Piedade, Pelourinho, Baixa dos Sapateiros e adjacências, Sete Portas e até no elegante Corredor da Vitória é possível observar usuários vociferando contra inimigos imaginários.
Feira de Santana não ficou imune ao processo: tímido no início, o consumo se alastrou nos últimos anos e existem, pelo menos, dois indicadores que sinalizam para a disseminação do crack no município: o elevado número de homicídios e o surgimento de incontáveis moradores de rua na região central da cidade.

Cracolândia

Há décadas, quando o Brasil nem sonhava com os programas de transferência de renda atualmente existentes, retirantes vivia em barracos improvisados nas imediações da Avenida Contorno. Tangidos pela seca, montavam acampamento na expectativa de viajar para São Paulo, que seguia como eldorado para os nordestinos sem oportunidades. No centro da cidade, a população de rua era composta por menores abandonados ou por idosos. Jovens moradores de rua, sobretudo homens, eram raros.
Hoje, o crack subverteu essa ordem. Ali pela Getúlio Vargas, perto da Praça de Alimentação, é possível ver jovens dependentes dormindo sob marquises. Grupos se aglomeram nas praças da Matriz e na Kalilândia, perambulando à cata de esmolas, fazendo pequenos serviços ou furtando para sustentar o vício.
A Feira de Santana precisa estar alerta para esse problema sob pena de, lá adiante, não repetir o triste espetáculo das “cracolândias” das grandes cidades, dispondo de uma “cracolândia” própria onde nem a polícia entra. São Paulo, que faz uma imensa e muito questionada operação para remover usuários da antiga Boca do Lixo, é um exemplo vivo de como é difícil enfrentar a questão...

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A educação à sombra dos viadutos


                       
           Inicialmente causou estranheza o silêncio com que foi recebida a notícia que a educação básica na Feira de Santana está entre as piores do Brasil, num ranking divulgado por uma revista de circulação nacional. O levantamento, que levou em consideração apenas as maiores cidades do país, baseia-se em dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). Depois se notou que, por banal, a notícia não provocaria grande repercussão: afinal, apenas se constatou de fato de uma situação amplamente percebida há muitos anos.
            Atribuiu-se o desempenho ao calamitoso estado físico das escolas públicas. Muito ágil, a prefeitura divulgou nota esclarecendo que a avaliação se referia ao período do mandato anterior, encerrado em 2008. E afirmou que investimentos foram realizados desde então, transformando a realidade escolar a partir da época do levantamento.
            Para além das disputas eleitorais entre o atual prefeito e seu antecessor, a situação da educação básica na Feira de Santana merece reflexão. O próprio silêncio com que a notícia foi recebida atordoa e exige compreensão: além das desculpas esfarrapadas e justificativas de praxe, nada de consistente veio à tona.
            O silêncio dos segmentos interessados na questão também é eloqüente: das entidades empresariais – que, em tese, tem interesse em dispor de mão-de-obra qualificada – aos sindicatos dos professores – que só vem a público para exigir aumento salarial – ninguém se manifestou. Os próprios pais dos alunos, ao que parece, não estão muito interessados em discutir educação de qualidade.

            Obras

            O roteiro da sucessão municipal é sintomático desse descaso pela educação. Só se fala em “grandes obras”: captação de empréstimos para construção de incontáveis viadutos de prioridade duvidosa, milhares de toneladas de asfalto para cobrir o calçamento das ruas centrais e – onde não existe calçamento – milhões de paralelepípedos para camuflar os esgotos a céu aberto.
            Esse cenário de “grandes obras” se arrasta há, pelo menos, uma década. A explicação para a questão é singela: as “grandes obras” estão à vista e fortalecem a sensação de progresso que a propaganda oficial busca alardear. Educação de qualidade não produz efeitos imediatos, não é visível fisicamente e é mais difícil de ser politicamente apropriada.
            Investir em educação também é uma estratégia eleitoralmente arriscada: eleitores emancipados costumam são menos previsíveis e tendem a rejeitar os arcaicos instrumentos de dominação política ainda bastante empregados no Brasil, em geral, e na Bahia, em particular.

            Alternativas

            A situação não significa, necessariamente, que a Feira de Santana tem que permanecer refém dessa perversa lógica política. Afinal, várias dezenas de municípios brasileiros têm educação com mais qualidade e desfrutam de situação econômica mais confortável. Parte da diferença se dá no nível de mobilização da sociedade por uma educação melhor.
            Sindicatos de trabalhadores, vinculados à educação ou não, associações empresariais e de classe, associações comunitárias e religiosas tem a obrigação de se engajar nesse debate. E dispõem de uma excelente oportunidade para cobrar um plano para a educação feirense: ano que vem acontecerão eleições municipais e os pré-candidatos devem ser convidados a expressar o que pensam sobre o tema.
            Para além da costumeira demagogia, das promessas genéricas e dos chavões surrados, o aprimoramento da educação é factível com um planejamento prévio. Esse planejamento, a propósito, não é prerrogativa exclusiva dos governantes e deve ser compartilhado com a sociedade, o que revela sintonia com os tempos modernos.
            É, inclusive, mais moderno que a retórica progressista que justifica os viadutos...             

           

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A Feira, a ponte e a reconfiguração logística


          
            Há quase duas semanas o Governo do Estado publicou decreto declarando de utilidade pública algumas áreas na Ilha de Itaparica. A iniciativa representa mais um passo para a construção da ponte entre Salvador e a ilha, que integra o projeto do Sistema Viário Oeste. Objeto de inúmeras controvérsias durante a campanha eleitoral de 2010, a proposta suplantou a condição de devaneio, passou pela etapa de obra faraônica para, por fim, delinear-se como um projeto factível no longo prazo. Estima-se que, por volta de 2018, a ponte esteja pronta.
            Em função das inúmeras dificuldades para a concretização do projeto, talvez a obra só esteja finalizada no início da próxima década. O intenso debate sobre a necessidade da construção da ponte, no entanto, serviu para evidenciar a sua importância como vetor de desenvolvimento econômico para a Bahia. Muitos, que resistiam, aos poucos se convencem da importância da iniciativa.
            Mais do que servir aos imperativos da expansão urbana de Salvador, a ponte vai induzir a dinamização econômica do Recôncavo, resgatando para o circuito produtivo e tornando competitivos municípios que, por décadas, penaram com os custos decorrentes da precária infraestrutura viária da região.
            Os investimentos complementares programados também vão beneficiar regiões mais distantes. É o caso do Litoral Sul, cuja ligação com Salvador vai ser encurtada; e o Oeste e a Chapada Diamantina, que contarão com uma alternativa viária a partir da BR 242 no Rio Paraguaçu, cortando o Recôncavo e alcançando Salvador a partir da ponte.

            Feira de Santana

            Essa reconfiguração logística da Bahia inevitavelmente vai afetar a Feira de Santana: assim como o município foi o principal beneficiário da adoção do modal rodoviário na primeira metade do século XX – em detrimento do Recôncavo – o oposto tende a acontecer quando o sistema Viário Oeste estiver em pleno funcionamento.
            Dezenas de municípios do Recôncavo e do Baixo Sul, que preferencialmente se articulam com a Feira de Santana em função das facilidades viárias, terão mais alternativas no futuro. Embora ainda seja difícil estimar, é provável que Santo Antônio de Jesus e Amargosa estejam entre os principais beneficiários dessas mudanças.
            A princípio desenha-se uma fragmentação no raio de influência comercial da Feira de Santana. Consumidores de municípios dinâmicos localizados mais ao Sul deverão aos poucos buscar os mercados prósperos que, paulatinamente, se consolidarão como opções atraentes. O impacto desse movimento sobre a economia da Feira de Santana precisará ser mensurado no futuro.

            Alternativas

            A relação da Feira de Santana com os municípios ao Norte não deverá sofrer transformações radicais. A questão é que as perspectivas de desenvolvimento mais promissoras que se desenham com esses investimentos não favorecem o município, que tende a perder importância relativa na economia do estado.
            Para atenuar os efeitos que se desenham, é necessário o fortalecimento do potencial logístico da Feira de Santana. A encrenca que envolve a BR 324, a novela do Anel de Contorno que se arrasta há muito tempo, a revitalização e o aproveitamento do aeroporto que permanece uma incógnita e a interligação ferroviária, que incorpore o município a esse modal, são imperativos para sustentar a competitividade com a nova configuração logística que se desenha.
            Solucionar esses problemas exige planejamento. As intermináveis lamúrias sobre o descaso do Governo do Estado fustigam o bairrismo e ajudam a oposição em períodos eleitorais, mas contribuem pouco na superação dos desafios. No ano que vem tem eleição e é extremamente desejável que os postulantes ao Paço Municipal pensem nessas questões em seus programas de governo...

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Um pouco da simetria do centro feirense

           
          
Uma das maiores virtudes da Feira de Santana é o seu traçado urbano. As ruas largas e os quarteirões bem organizados transmitem uma sensação de planejamento que é realçada por um feliz fator geográfico: a escassez de ladeiras e a ausência de declives acentuados, como as encostas que tornam Salvador mais feia. Essa condição atenua os efeitos da ocupação desordenada de certos espaços urbanos e impede a ocorrência de grandes tragédias, como os deslizamentos de encostas que acontecem em períodos chuvosos.
            A cidade deve o traçado organizado, além do próprio planejamento bem elaborado, ao seu desenvolvimento tardio: somente a partir dos anos 1960 é que a zona urbana começou a se expandir de forma mais acelerada. Até então, a população majoritariamente rural afetava pouco a paisagem citadina com fluxos migratórios mais intensos.
             Naquela época a Feira de Santana se limitava aos tímidos arruamentos que se irradiavam a partir da Praça da Matriz e que foram, aos poucos, dando forma aos becos estreitos que até hoje existem. Mais perto da igreja estão os becos de Santana, do Mocó e da Energia.
            Mais distante fica o calçadão da Sales Barbosa, a antiga rua Direta cujas formas são herança dos tempos em que havia poucos carros em circulação pela cidade. Exclusivamente comerciais, esses espaços hoje sofrem com o fluxo intenso de pedestres e com as dificuldades de acesso para quem se locomove de carro e não tem onde estacionar.

            Ruas Largas 

Bairros limítrofes do centro feirense como a Kalilândia contam com ruas largas, ausência de curvas e quarteirões verdadeiramente quadrados. Essa cuidada geometria urbana é mais apreciável nos dias de pouco movimento, como as ensolaradas manhãs de domingo ou nos feriados, quando os automóveis repousam nas garagens.
            Em meio aos inquietos silêncios dessas manhãs, é possível enxergar o horizonte longínquo que, à medida que o meio-dia se avizinha, vai se tornando trêmulo em meio às ondas de calor que se desprendem do asfalto.
            Nesses dias a Feira de Santana nem se parece com a Feira de Santana do mercadejar incessante, do intenso ir-e-vir dos passantes apressados, dos produtos apregoados pelos carros de som e pelos alto-falantes nas portas das lojas. Paira, precária, uma trégua fugaz, como o vento que sacode as folhas nas árvores da Getúlio Vargas.

            Rotina

            A rotina do centro feirense, no entanto, vai se impondo nos pequenos detalhes. Ali pelo calçadão da Sales Barbosa há sempre um ambulante arrumando uma barraca, uma lixadeira escandalosa nas mãos do serralheiro que cuida da fachada de uma loja ou taxistas e motoqueiros que aguardam passageiros incertos nos pontos.
            Esse é o centro nervoso da Feira antiga, cuja vocação comercial não se suaviza nem nos dias em que o feirense bebe nos botequins dos bairros, acompanha os rituais religiosos com roupas formais ou simplesmente se dedica à programação televisiva enquanto aguarda o almoço.
            No mais, as ruas largas e longas espicham-se em meio ao calor crescente, perdendo-se na linha imaginária do horizonte urbano. Para quem caminha despretensiosamente pelo centro da Feira de Santana, essa a é única linha incerta no simétrico traçado urbano da cidade.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Lembranças de Havana (VII)

 
As ruas de la Habana Vieja guardam algumas semelhanças com os centros antigos de muitas cidades, mas possuem algumas características bastante particulares. Uma delas é a simetria entre as ruas: aparentemente, as ruas centrais da cidade foram meticulosamente planejadas, o que contrasta com os centros antigos normalmente ocupados ao sabor das necessidades imediatas. Não consegui descobrir se foi obra do caso ou capricho do colonizador espanhol.
A característica mais marcante, no entanto, é que as ruas muito estreitas raramente são banhadas pelo sol. O arruamento tangencial à trajetória do sol e os inúmeros sobrados vedam a luz natural e conferem à paisagem um aspecto sombrio e úmido consagrado nas fotografias da cidade.
Essas observações vem à cabeça à medida que o transeunte oriundo do mundo capitalista choca-se com a absoluta ausência de estabelecimentos comerciais. A lógica mercantil orienta a ocupação dos espaços urbanos nas sociedades de consumo, valorando ou não determinados espaços sob uma perspectiva estritamente utilitarista.
Em Havana, a lógica utilitarista que prevaleceu até 1959 se diluiu com a adoção de uma funcionalidade urbana que, sob a ótica do observador estrangeiro, é anárquica porque não se enquadra dentro dos padrões capitalistas convencionais de produção e consumo. Não é a dinâmica mercantil que orienta o uso do espaço.
Na capital cubana, a cada manhã, não se veem fluxos deslocando-se da periferia para o centro da metrópole; as áreas de adensamento comercial não orientam o sistema de transportes; a cidade, em suma, não se organiza em função da dinâmica espacial da elite burguesa, que por lá não existe.
Essas ideias só se cristalizam na mente do visitante algum tempo depois. No início, há o choque terrível da ausência de referenciais capitalistas: os espaços de aglomeração e consumo inexistem e emergem a angústia e o pasmo: quem desejar comprar um remédio qualquer no meio da noite, como o fará? A prosaica aquisição de uma fruta assemelha-se a uma aventura inconsequente na metrópole com dois milhões de habitantes.
O fato, para o visitante ambientado à comodidade da vida burguesa, é que o regime cubano desconsola porque desnorteia e deseduca. Vagar sem rumo pelas ruas de Havana, examinar os rostos dos passantes, bebericar rum nos hotéis, conversar com garçons e músicos, circular nos ônibus coreanos implica um questionamento de valores profundo, um exercício de iconoclastia. Mas a que conduzirá?
Eis uma indagação cujas respostas, provavelmente, amadurecem lentamente.